Crianças no balé

Escrito por Kim John Payne

Original em inglês publicado no livro

Games Children Play: How Games and Sport Help Children Develop

e reproduzido no site Movement for Childhood

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

Assim como a ópera, o balé é uma das formas clássicas de arte. E por que é assim? E por que tantas crianças fazem aulas de balé clássico?

Foto de khongkitwiriyachan do site FreeDigitalPhotos.net

O balé é uma forma altamente estilizada de movimento, talvez a mais estilizada. Enquanto um ser humano comum consegue chutar, bater ou quicar uma bola, dar socos ou lutar, talvez até rolar no chão ou dar uma estrela, há pouquíssimas pessoas que conseguem se mover como um bailarino clássico. Isso não surpreende, pois esse é exatamente o objetivo do balé. Os movimentos são elaborados para parecer não apenas graciosos, mas também para elevar a plateia para longe da existência terrena. Além disso, um aspecto do balé é que ele é quase totalmente centrado nos espectadores. Certamente os bailarinos têm sensações – especialmente a dor! – mas eles não devem comunicá-las ao espectador. Eles devem fazer parecer como se a terra, com todos os cuidados e limitações, não existisse. A gravidade é superada e negada. O bailarino parece nos jogar em outra dimensão.

Essa negação da gravidade mostra-se de muitas maneiras. A mais óbvia é o tutu e as vestimentas em geral. O tutu sai da cintura e forma uma faixa de babados em volta da bailarina. Ele exibe uma distinção clara entre a parte do corpo que fica em evidência acima da cintura, geralmente vestido de forma chamativa e atrativa; e a parte de baixo do corpo, quase sempre adornadas somente com meias-calças. O tutu enfatiza a parte superior do corpo da bailarina e também a impede de ver suas próprias pernas e pés.

A postura toda do bailarino é desenvolvida e sustentada pelos músculos, sobretudo do abdome e das pernas. As bailarinas passam horas dolorosas aprendendo a posição de ponta, na qual as articulações dos dedões são forçadas a carregar todo o peso do corpo, deformando os pés. Isso aumenta a ilusão de leveza, enquanto apenas uma área mínima está em contato com o chão, reforçando a impressão de uma atitude de sentido oposto à terra – quanto menos contato físico com o chão, melhor. O movimento dos pés em pequenos passos parece fazer flutuar a parte superior do corpo. Ou as bailarinas são jogadas e saltam alto no ar, parecendo planar como um pássaro. O olhar é direcionado para cima e além. Os movimentos dos braços geralmente começam na cintura e vão para cima, raramente descendo abaixo do tutu. Uma cópia do estilo do movimento fácil e leve de uma criança.

Então as apresentações de balé, particularmente desde a revolução industrial, foram encorajadas a deixar o mundo para trás, com todo o seu crescente materialismo e mecanização, e ser transportados a esferas mais graciosas. Quem não apreciava essa forma de arte era considerado filisteu, alguém que era excluído dos aspectos mais nobres da vida cultural.

Na verdade, o movimento de uma criança e a sua intenção interior, especialmente nas brincadeiras, não poderiam ser mais diferentes do movimento do bailarino. Enquanto este passa horas treinando para alcançar uma leveza baseada na técnica, a criança se move com uma efervescência e uma flutuabilidade tão lindas quanto inconscientes. Os movimentos dos dançarinos clássicos são altamente estilizados. Os das crianças são totalmente naturais. O bailarino faz uma nítida divisão entre a experiência interior e o que pode ser observado externamente. A criança não conhece tal divisão: a maneira como ela se move é fortemente motivada por seu sentimento. Enquanto o bailarino lida com a abstração, a criança está imersa na realidade. Os movimentos do dançarino clássico são cuidadosamente dirigidos, os da criança, são espontâneos. O dançarino move-se para a apreciação de uma plateia, a criança brinca porque é sua expressão natural da vida. O objetivo da bailarina é elevar-se acima da existência terrena. As energias da criança são completamente opostas: ela quer aprender sobre o mundo e fazer parte dele.

O trecho seguinte é do livro “The Art of the Dance” (A arte da dança, em tradução livre) de Isadora Duncan.

A escola de balé de hoje produz um movimento estéril que não gera movimentos novos, mas que morrem quando são produzidos; pois luta inutilmente contra as leis naturais da gravidade ou contra a vontade natural do indivíduo e trabalha sua forma e movimento em desarmonia com a forma e o movimento da natureza.

Na expressão do balé moderno, cada ação tem um objetivo e nenhum movimento, pose ou ritmo é sucessivo ou pode ser feito para envolver ações sucessivas. É uma expressão de degeneração, de morte viva. Todos os movimentos de nossa escola de balé moderna são movimentos estéreis porque não são naturais. Seu propósito é criar a ilusão de que a lei da gravidade não existe para eles.

Os movimentos primários ou fundamentais da nova escola de dança devem ter dentro de si as sementes que envolveram todos os outros movimentos, cada um de uma vez para dar lugar a outros em uma sequência infinita de expressões, pensamentos e ideias ainda mais altos e melhores.

Para aqueles que, entretanto, ainda apreciam os movimentos por razões históricas, coreográficas ou quaisquer outras razões, para esses eu respondo: não se vê além de suas saias e malhas. Mas olhe, por baixo das saias e das malhas estão dançando músculos deformados. Olhe ainda mais atentamente: um esqueleto deformado está dançado diante de você. Essa deformação proveniente de vestimentas e de movimentos inadequados é resultado do treinamento necessário ao balé.

O balé condena a si mesmo ao reforçar a deformação do lindo corpo da mulher! Nenhuma razão histórica nem coreográfica pode prevalecer a isso!

A missão de toda arte é expressar os ideais mais altos e mais lindos do homem. Qual ideal o balé expressa?

Encorajar crianças a praticar balé é impor um conceito adulto de beleza a elas, que não têm necessidade disso. Se a criança for repetidamente exposta a essa forma de treinamento, ela vai, por fim, começar a adotar os valores adultos dos bailarinos. E isso significa convidar distúrbios emocionais e limitar a experiência de uma infância plena.

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Sobre Luciana Nascimento Fernandes

Como jornalista, produtora audiovisual e tradutora (inglês - português | francês - português), gosto muito de lidar com palavras, sejam escritas ou faladas. Leia, comente e - se sentir vontade - compartilhe. Agradeço pela visita!
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