Suécia, mas que lixo?

Escrito por Jane Zhang

Original em francês publicado no site

http://www.lejournalinternational.fr/Suede-mais-quelles-ordures_a694.html

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

ImagemFoto: Lars Ekelund

Usina Gärstadverken, na cidade de Linköping, Suécia: incineração de resíduos para geração de energia.

Fonte: http://www.folkbladet.se/Print.aspx?ArticleID=5067732

A Suécia, país híper-ecológico, onde um milhão de lares são abastecidos com eletricidade gerada pela queima de resíduos, está diante de um dilema: ela não tem mais combustível suficiente.

A Suécia, terceiro país mais desenvolvido do mundo segundo as Nações Unidas1, tem um problema extraordinário. Seus 9,5 milhões de habitantes reciclam com tanto rigor que falta lixo para manter suas usinas de incineração que geram eletricidade. Em relação ao restante da Europa, que recicla em média 38% de seus resíduos, a Suécia gerencia (recicla, composta e incinera) 96% do lixo produzido2.

Mais detalhadamente, 36% dos resíduos são reciclados, 14% compostados e 49% incinerados. É a taxa mais alta da União Europeia, depois da Dinamarca – que incinera mais de 54% de seu lixo. Dizendo de outra maneira, quase a metade dos rejeitos suecos queima nos incineradores ou nos “centros de valorização energética”, cada vez mais atuantes. Essa queima de resíduos produz atualmente energia suficiente para aquecer 810 mil lares (o equivalente a 20% do aquecimento urbano do país) e ainda fornece energia elétrica para outras 250 mil casas, de um total de 4,6 milhões de famílias.

O problema, se é que podemos chamá-lo assim, é que a Suécia é muito obstinada em triar seu lixo e muito atuante nessa área. Sua capacidade de incineração é bem superior aos seus dois milhões de toneladas de resíduos produzidos a cada ano. Para manter suas usinas em funcionamento e evitar a perda de dinheiro, Estocolmo, por exemplo, decidiu importar 800 mil toneladas de lixo por ano, vindas de diversos países europeus – no momento, vem essencialmente do vizinho norueguês.

Embora o preço da incineração na Noruega ainda seja muito alto para ser rentável, a troca, na verdade, favorece a Suécia. A Noruega paga ao país vizinho para levar o seu lixo, a Suécia o queima para gerar aquecimento e eletricidade, e as cinzas tóxicas que sobram são devolvidas aos depósitos de lixo da Noruega. Em resumo, os suecos ganham dinheiro e energia, enquanto os noruegueses retomam os rejeitos propriamente ditos.

Muito bem, Suécia!

Por outro lado, a Suécia é assim tão limpa como se mostra? É evidente que a incineração de resíduos em larga escala traz a questão lógica da emissão de poluentes e de seus riscos. No conjunto, a Suécia faz de tudo para apresentar uma “ficha limpa”. A partir dos anos 1980, o Estado Sueco instaurou uma regulamentação estrita, regulamentando suas emissões, o que levou a uma redução de cerca de 90% das mesmas. Por exemplo, as emissões de cloreto de hidrogênio (HCl) – um gás incolor tóxico e corrosivo – foram reduzidas drasticamente de 8,4 mil toneladas emitidas em 1985 para 60 toneladas em 2007. As emissões de óxidos de enxofre (SOx) – a principal causa de chuvas ácidas – passaram então de 3,4 mil para 196 toneladas. As emissões de chumbo foram mais que reduzidas, passando de 25 toneladas para 51 quilos por ano.

Entretanto, as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx), que incluem o monóxido de nitrogênio (NO) e o dióxido de nitrogênio (NO2), continuam elevadas apesar das diminuições, causando impactos ambientais como efeito estufa, acidificação do ar e chuvas ácidas. As emissões de óxidos de nitrogênio ainda chegavam a 2,1 mil toneladas em 2007, contra 3,4 mil em 1985.

É verdade que essa é apenas uma pequena crítica ao 74º emissor mundial de CO2. Ora, o dia em que a Suécia baixar suas emissões de óxidos de nitrogênio, talvez seus felizes lixeiros voltem sua atenção para a Grande Porção de Lixo do Pacífico. Uma perspectiva que responderá às suas necessidades nacionais, e quem sabe, poderá resolver o problema da gestão de resíduos em escala mundial.

1 N.T.: A Suécia é a sétima nação mais desenvolvida segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2013 (RDH 2013), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), publicado em março do ano passado.

2 N.T.: Segundo site oficial do país, a Suécia já gerencia 99% de seu lixo.

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Sobre Luciana Nascimento Fernandes

Como jornalista, produtora audiovisual e tradutora (inglês - português | francês - português), gosto muito de lidar com palavras, sejam escritas ou faladas. Leia, comente e - se sentir vontade - compartilhe. Agradeço pela visita!
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2 respostas a Suécia, mas que lixo?

  1. Paulo diz:

    O sistema é tão eficiente que acaba auxiliando países vizinhos…

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