Slow Parenting – Desacelerando a educação dos filhos

Escrito por Abby Quillen

Original em inglês publicado no site

http://newurbanhabitat.com/2009/11/29/slow-parenting/

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

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Eu tive aulas de natação e de piano e participei de alguns grupos na escola, mas quando eu penso na minha infância, é dos momentos de lentidão de que me lembro – dias de verão infinitamente longos; conversas com meus pais que pareciam poder durar para sempre; calmas tardes de leitura, de divagação, de sonhar acordada e de brincar.

Algumas das minhas amigas tinham aulas de ginástica, futebol ou participavam do grupo de bandeirantes. Mas todas nós tínhamos um grande tempo desestruturado em nossos dias. Nós passávamos nossos verões em passeios de bicicleta por toda a cidade (sem capacetes), caminhando até o clube ou perambulando em grupos, de quintal em quintal, até a hora do jantar.

Minha mãe, meu pai, minha irmã e eu também passávamos incontáveis horas contando histórias, saindo para caminhadas, trilhas, acampamentos, jogando jogos de tabuleiro e simplesmente ficando juntos.

E todos esses momentos aparentemente vagarosos culminaram em algo importantíssimo: a minha infância.

A propagação dos Super-Pais

Aparentemente, nos últimos vinte anos, quando eu não estava prestando atenção, as infâncias como a minha foram extintas. De acordo com o artigo The Growing Backlash Against Over Parenting (algo como “O crescente contra-ataque à super-proteção), publicado na revista Time por Nancy Gibbs em novembro de 2009, “a super-proteção e o superinvestimento de mães e pais” aumentou em proporções quase cômicas.

Gibbs escreve que os pais começaram a comprar joelheiras para os bebês e a rodear seus adolescentes; a proteger suas crianças de cada tombo, arranhão ou nota ruim; e a pressionar os filhos a conseguir cada vez mais com cada vez menos idade. Ela escreveu que os pais modernos estão criando filhos que são ou como “xícaras de chá” – sujeitos a se quebrar a cada pressão – ou como “torradas”, já “ressequidos” no momento em que forem para a faculdade.

Eu não posso dizer que fiquei monitorando as tendências na educação de filhos nas últimas décadas. Mas quando penso nisso, vários dos novos pais que eu conheço matriculam suas crianças em algumas aulas: dança, natação, música e língua de sinais. E eu ouço com freqüência os pais se lamentarem por não poderem deixar seus filhos mais velhos caminharem até a escola ou brincarem sozinhos no jardim porque “não é mais como antigamente”. E um professor de faculdade que eu conheço entretém seus amigos com estórias de deixar o cabelo em pé sobre pais que telefonam pedindo para ele mudar a nota de seus filhos.

O contra-ataque

Segundo Gibbs, uma reação está borbulhando contra toda essa aceleração. Alguns pais e defensores estão clamando pelo retorno da criação de filhos mais desacelerada e tranqüila, como foi a minha. Estão chamando esse movimento de Slow Parenting, Free-Range Parenting, ou Simplicity Parenting.

Carl Honoré, autor dos livros “Devagar – Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade” (Editora Record, 350 páginas) e “Sob Pressão – Criança nenhuma merece super-pais” (Editora Record, 368 páginas), tem inspirado muitos devotos do Slow Parenting (embora ele não use efetivamente o termo em seus livros). Ele definiu o que é Slow Parenting numa entrevista com Lisa Belkin para o blog Motherlode, do New York Times.

Slow Parenting é trazer equilíbrio para o seu lar. As crianças precisam esforçar-se, lutar e machucar-se, mas isso não quer dizer que a infância deva ser uma corrida. Os pais desacelerados dão aos seus filhos tempo de sobra e espaço para explorar o mundo do jeito das crianças. Esses pais mantêm os horários da família sob controle de modo que todos tenham tempo para descansar, refletir e simplesmente ficar juntos. Eles aceitam que fazer o impossível para dar às crianças o melhor de tudo nem sempre é a melhor atitude. Slow Parenting significa permitir aos nossos filhos que desenvolvam quem eles são e não quem nós queremos que eles sejam”.

Carrie Contley e Bernadette Noll, que comandam o blog Slow Family Living e ministram aulas e oficinas, escrevem que Slow Parenting é:

“permitir que a vida familiar se desenvolva de forma que esteja conectada alegre e conscientemente. Isso significa desacelerar, encontrar conforto em casa e criar o espaço para ver e honrar a família como uma entidade, mantendo, simultaneamente, a visão de cada membro como um indivíduo único e valioso”.

Desacelerando a vida familiar

Quando o meu filho nasceu, um ano e meio atrás, eu fiquei um pouco chocada que meu marido e eu continuássemos nessa mesma trilha. Meu menino não teria o mesmo tipo de infância que eu tive.

Tanto eu quanto meu marido trabalhávamos período integral e em horários completamente opostos. Então o tempo que teríamos como família seria quase nulo. Meu filho ficaria na creche. Nossas manhãs seriam um frenesi. Nós estaríamos em frangalhos à noite. E haveria muito poucas daquelas tardes longas fazendo biscoitos, projetos de arte ou lendo livros juntos, porque eu tinha listas de afazeres e lugares para ir que se acumularam durante a semana. Meu marido e eu passamos a maior parte do primeiro ano de nosso filho reorganizando nossas vidas de forma que pudéssemos ter uma vida familiar mais desacelerada e mais conectada.

Então estou emocionada que outros pais estejam questionando se as crianças precisem de muitas aulas extracurriculares caras; que estejam voltando atrás dando aos seus filhos espaço para brincar, pensar, errar e se entediar; e que estejam priorizando passar um bom tempo juntos, à moda antiga.

Os pais precisam de espaço também?

Eu perguntei ao meu marido, que é professor do ensino médio em uma escola de baixa renda, se ele tem visto uma epidemia de super-pais. Ele riu. “Quem dera. É mais frequente o contrário. Pais que nunca aparecem, não atendem os telefonemas e parecem não se importar”.

Seus comentários me fizeram pensar que talvez as crianças não sejam os únicos que precisam de espaço para respirar e cometer erros. A educação de filhos é um trabalho aprendido e talvez nós façamos pior aos nossos filhos do que se estivéssemos envolvidos além da conta.

Então embora, provavelmente, seja demais comprar joelheiras para bebês, cortar uma árvore para prevenir que uma castanha caia na piscina de uma criança alérgica ou ir correndo diversas vezes para a escola para entregar um caderno, a lancheira ou um colar, como fizeram alguns pais citados no artigo que Gibbs escreveu para revista Time, eu também hesito em julgar. Eu sei em primeira mão, que encontrar o equilíbrio perfeito na educação dos filhos não é uma tarefa fácil.

Mas se a educação de filhos desacelerada está prestes a lutar para estar mais conectada enquanto dá às nossas crianças mais espaço para que sejam elas mesmas, esses parecem ser objetivos que realmente valem a pena.

 

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Sobre Luciana Nascimento Fernandes

Como jornalista, produtora audiovisual e tradutora (inglês - português | francês - português), gosto muito de lidar com palavras, sejam escritas ou faladas. Leia, comente e - se sentir vontade - compartilhe. Agradeço pela visita!
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2 respostas a Slow Parenting – Desacelerando a educação dos filhos

  1. Paulo A. F. diz:

    Muito bom o texto!

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