Mães reagem contra intervenções no parto

Escrito por Louise Carpenter

Original em inglês publicado no The Guardian em 16/12/2012

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

Foto: Oriol Martinez

Foto: Oriol Martinez

Durante o trabalho de parto, mulheres sentem-se sob grande pressão quando médicos e enfermeiros as intimidam com intervenções médicas indesejadas. A repórter Louise Carpenter relata o início do contra-ataque dessas mães.

Dois meses atrás, uma mãe de três filhos – vamos chamá-la de Charlotte – venceu depois de lutar por dois anos. Um hospital de Glasgow (The Southern General Hospital), na Escócia, onde ela teve o parto de seu terceiro bebê, finalmente admitiu ter cometido violência obstétrica ao administrar antibióticos preventivamente contra a vontade dela e sem necessidade. Eles ameaçaram chamar o serviço social para retirar-lhe a criança após o nascimento.

“Mas no fim, a questão não foi sobre o meu bebê. Foi sobre todo o controle sobre mim e o poder deles”, relata Charlotte, cuja bolsa rompeu quando já haviam passado três dias da data provável do parto. “Não gostaram quando eu questionei sobre quais eram as evidências que comprovavam a posição deles em vez da minha e não gostaram quando eu disse que essas evidências não eram boas o suficiente. Eu não sei se a consultora médica estava em algum tipo de jogo de poder por eu tê-la contestado, mas o resultado foi que eu fui forçada a fazer algo que eu não queria por causa das ameaças. No final eu simplesmente disse: ‘me dá logo esse remédio’.”

O hospital desculpou-se formalmente somente após Charlotte ter-se dirigido à Ouvidoria Pública (Scottish Public Services Ombusdsman). Isso levou dois anos. O relatório da ouvidoria decidiu finalmente que “(Charlotte) não consentiu propriamente no tratamento administrado e foi injustamente colocada sobre extraordinária pressão durante o trabalho de parto, quando ela estava em uma situação de muita vulnerabilidade”.

Tais exemplos de “supremacia fetal” sobre o direito da mulher de escolher o que deve ou não ser feito com ela tem provocado um crescente movimento internacional. O objetivo é chamar a atenção às principais violações, no mundo todo, dos direitos da mulher durante o parto, muitas delas no Reino Unido. O movimento tem unido mães, advogados, obstetras, parteiras, filósofos e epidemiologistas.

No dia 20 de setembro de 2012, cem mil mulheres em todo o mundo compareceram a exibições de Freedom for Birth (Liberdade para nascer, em tradução livre), um filme britânico com duração de uma hora, traduzido para 17 idiomas e exibido em mil salas de cinema. O longa-metragem apresenta evidências convincentes de que os direitos básicos de mulheres grávidas e parturientes estão sendo violados. A natureza dos abusos varia: exames não solicitados pelas gestantes, induções de parto não consentidas, partos domiciliares recusados por motivos duvidosos, parteiras sendo presas por realizarem partos domiciliares (sim, isso mesmo) ou simplesmente a rejeição da vontade da mulher com o uso crescente da ameaça de acionamento do serviço social.

“Na minha opinião, o parto é a verdadeira linha de frente do campo de batalha pelos direitos humanos”, diz Rebecca Schiller, doula formada em direitos humanos e ativista britânica. “Nada diz mais sobre uma sociedade, uma cultura ou uma atitude individual em relação aos direitos das pessoas à sua volta do que a sua atitude em relação aos direitos e responsabilidades de uma parturiente. Nossos direitos humanos começam quando nascemos. Se esse momento for colocado contra o horrível cenário de subjugação de nossas mães para retirar deliberadamente, até mesmo criminosamente, alguns dos direitos mais básicos que todos nós esperamos ter, que chance teremos de viver uma vida na qual nossos próprios direitos sejam respeitados?”.

Quando eu ouvi falar pela primeira vez do movimento Freedom for Birth – antes de entrevistar Charlotte e muitas mulheres como ela – confesso que eu era cética quanto à ideia de trazer a ferramenta dos “direitos humanos” para dentro de uma arena médica. Para mim, isso tornaria ainda mais difícil aos médicos, já sobrecarregados, fazerem seu trabalho. Tendo passado por quatro partos naturais, todos eles em hospitais e assistidos por enfermeiros e obstetrizes fantásticos, achei difícil conseguir me conectar com um movimento que usa a linguagem do confronto contra o estabelecimento médico. “Os médicos não têm necessariamente os melhores interesses delas (das mulheres) no coração”, diz Bervely Beech, presidente da Association for Improvements in the Maternity Services (Associação para Melhoramentos de Serviços de Maternidade). Todas essas violações de direitos humanos, segundo ela, têm relação com “poder e controle”.

Pode parecer uma questão de gênero, mas não é. Obstetras mulheres podem, tanto quanto médicos homens, ser igualmente culpadas de tratar opressivamente as parturientes. Charlotte relatou a mim que foi importante para ela descobrir o gênero do consultor médico que passou por telefone a decisão final do serviço social para a sua equipe: era uma mulher, como eram todos os outros médicos envolvidos no caso e no pedido de desculpas subsequente.

Podemos também olhar cinicamente para a ironia das mulheres ocidentais, mais do que privilegiadas, reclamando de excessivos cuidados médicos na maternidade, enquanto mulheres de países em desenvolvimento morrem por falta desses cuidados. (Essa é também uma linha da campanha do movimento Freedom for Birth – o direito à assistência médica apropriada e ao parto seguro para mulheres de todo o mundo.) Esse tipo de crítica está fora do foco, como a advogada norte-americana e organizadora da recente conferência de Haia sobre Direitos Humanos no Parto, Hermine Hayes-Klein, aponta com prontidão. “Onde quer que as mulheres tenham feito campanha por direitos melhores, são sempre criticadas como sendo reclamações de mulheres brancas privilegiadas. A luta de por cuidados adequados durante o parto por mulheres que não os possuem não significa que aquelas que os têm devam perder sua autonomia em um clima excessivamente medicalizado, onde quer que seja”.

“E na questão dos médicos, não se trata de tentar afirmar que eles estejam dizendo uns aos outros: ‘essas cadelas brancas precisam ser controladas! ’ É mais uma questão de como eles são obrigados a agir, com protocolos extensos e políticas de riscos. Eles trabalham em equipes, geralmente pressupondo que as futuras mães podem acatar ordens. O que está vindo à consciência é a obscura premissa institucional de quem tem a palavra final, porque essa premissa realmente afeta a dinâmica. Para algumas mulheres, a questão chegará a uma solução, para outras, não.”

No filme Freedom for Birth, a professora Lesley Page, presidente do Royal College of Midwives (Faculdade Real de Obstetrizes), afirma que “o que temos são sistemas de assistência que encorajam intervenções desnecessárias e interferências no parto”. E quando as mulheres protestam muitos médicos “tiram da manga a carta do bebê morto” (um fenômeno identificado em 2011 por pesquisadores de um estudo canadense) insinuando, geralmente sem evidências científicas, que o feto está em risco e que a mãe está agindo de acordo com seus próprios interesses, não de acordo com os interesses da criança ainda não nascida.

A advogada especialista em direitos humanos Elizabeth Prochaska, do escritório de advocacia Matrix Chambers e co-fundadora da Birthrights (Direitos do Parto), uma instituição de caridade montada para oferecer gratuitamente suporte jurídico a mulheres britânicas cujos direitos humanos tenham sido violados durante o parto, diz que não há base na lei para a “supremacia fetal”, mesmo se o bebê estiver em risco. Uma gestante tem o direito de tomar as rédeas, e não os médicos que estão cuidando de seu feto.

“A questão que está sendo levantada sobre os direitos do aborto tem íntima relação com a mulher e a sua gravidez”, diz Prochaska. “Quando uma mulher decide não concordar com uma cesariana, você provavelmente também tem uma opinião sobre isso. Mas onde esse limite deve ser traçado? Da mesma maneira que eu não diria que a mãe e a criança são o mesmo ser, em termos legais eles são um único ser. Você não pode separá-los. Se você o fizer, acaba subjugando a mulher ao papel de um receptáculo e você deve reconhecer que o bebê só tem direitos civis depois de nascido. Trata-se do corpo da mulher e é o que transforma os direitos humanos no parto em alguns dos direitos humanos mais fundamentais que há, pois envolve as escolhas que a mulher faz sobre seu corpo.”

O contra-argumento, certamente, é perguntar: como a sociedade pode proteger uma mãe e seu feto de uma decisão ruim? Em resumo, ela não pode. A não ser que poderes distintos possam ser acionados caso uma mãe tenha uma doença mental. Mas, segundo ativistas, focar na possibilidade de um número ínfimo de mulheres irresponsáveis e egoístas é se distrair de algo muito mais importante. Isso também enfraquece os direitos humanos, que deveriam garantir que as mulheres tenham a experiência de parto que desejem.

“É uma completa falácia afirmar que as mulheres que desejam fazer escolhas contrárias à opinião dos médicos não têm os melhores interesses do bebê em seus corações”, diz Hermine Hayes-Klein. “Mostre-me uma mulher que não coloca seu bebê ainda não nascido como prioridade. Há muito, muito poucas”.

É difícil enumerar os abusos alegados no Reino Unido. Mas para mim não foi difícil encontrar mulheres com histórias para contar. Melissa Bowram Hopper, por exemplo, pariu há sete semanas, em casa. Doula profissional, ela decidiu, com 30 semanas de gestação, que ela queria um parto sem intervenções (segundo ela, “o parto não é um procedimento médico”). Inicialmente, a obstetriz de Melissa a apoiou, mas conforme a data provável do parto se aproximava, Melissa gradativamente era pressionada a mudar de ideia. Melissa finalmente deu à luz seu bebê com seu parceiro no que ela descreve como sendo um momento de grande euforia.

Tudo ia bem até que o serviço social, aconselhado por sua obstetriz, telefonou e disse querer vê-la. Quando Melissa disse que não iria à consulta, eles chegaram mais tarde em sua casa e citaram a seção 47 do Ato de Proteção à Criança (Child Protection Act), dizendo que eles temiam pela criança ainda não nascida (que nesse momento já havia nascido), assim como pela segurança de seu filho mais velho, que ainda não tinha completado três anos. Melissa se escondeu no primeiro andar de sua casa e seu parceiro mandou o serviço social embora. Quando eu pergunto a Melissa por que ela não deixou a assistente social entrar e mostrou a ela que seu bebê estava bem e saudável, ela responde que se sentiu acuada. Situações como essa, segundo ativistas dos direitos humanos, são bastante comuns. Quando os hospitais começam a usar táticas pesadas mulheres desiludidas que optam por escolhas não convencionais geralmente tornam-se menos submissas, e não o contrário.

Dois dias depois, outra assistente social apareceu em sua casa com dois policiais. Como Charlotte, Melissa diz que ficou se perguntando: “Eles realmente podem fazer isso? Eles podem ameaçar tirar as minhas crianças só por causa do meu parto?”. O serviço social só a deixou em paz quando o bebê foi examinado. A investigação foi encerrada duas semanas depois. “Tudo o que eu queria era controle total sobre a minha vida e sobre o meu parto”, ela declara. “Se eles tivessem sido razoáveis comigo, com certeza eu teria cooperado desde o início.”

O que quer que alguém pense sobre um parto sem intervenções, ou sobre a decisão tomada por uma mulher na Holanda de parir em casa seus gêmeos, que se encontravam em posição pélvica, ou seja, sentados (provavelmente o exemplo mais extremo usado no filme Freedom for Birth), o fato é que isso é direito das mulheres. Essa mulher holandesa ainda acabou sendo escoltada pela polícia para um hospital e forçada a fazer uma cesariana.

Esse ano, duas decisões legais trouxeram o assunto à atenção mundial. Agnes Gereb, uma obstetra e parteira húngara, foi condenada por “colocar a vida em risco na execução de seu trabalho profissional” depois de bebês terem morrido em dois partos domiciliares atendidos por ela. Gereb havia assistido partos domiciliares por 22 anos em um país onde a prática era, até o ano passado, ilegal e ainda é fortemente restrita. A obstetriz foi sentenciada a dois anos de prisão e atualmente está sob prisão domiciliar aguardando a decisão de um outro julgamento, iniciado essa semana.

Anna Ternovzky, uma das clientes de Gereb, estava grávida do segundo filho na época em que a obstetriz foi condenada. Temendo que qualquer parteira que a assistisse no parto domiciliar pudesse ser processada, Ternovzky levou seu caso à Corte Europeia de Direitos Humanos, alegando que a Hungria estava violando dois artigos da Convenção Europeia de Direitos Humanos: o direito à vida privada e o direito à não-discriminação.

A corte decidiu em seu favor. “A sentença desta corte europeia pode encorajar mudanças radicais”, explica Elizabeth Prochaska, do escritório Matrix. “Isso impõe obrigações legais positivas em todos os estados integrantes do Conselho Europeu, que inclui todos os estados membros da União Europeia. Juntos, esses estados têm 250 milhões de mulheres e agora cada parturiente naquela jurisdição pode dirigir-se ao seu estado e dizer: ‘Você deve respeitar minha autoridade para escolher as circunstâncias nas quais eu darei à luz de acordo com a decisão do caso de Ternovzky contra a Hungria.’”

Deixando de lado toda a teoria ética e legal, a questão mais urgente para o restante de nós mulheres – e nossos parceiros – é: por que a campanha Freedom for Brith é necessária agora? Por que os direitos humanos das parturientes estão sendo violados? Eu me agarro à ideia de que a maioria dos obstetras e das parteiras hospitalares não está fazendo demonstrações conscientes de poder, que eles não querem fazer as mulheres sofrerem desnecessariamente durante seus trabalhos de parto e que, se questionados, eles iriam querer que as mulheres se sentissem felizes. (Embora uma mãe inteligente e instruída tenha me contado a forma como uma parteira, que depois disso foi repreendida, tinha a tratado como uma criança de cinco anos de idade e sob ameaças, como: “Podemos fazer isso do jeito fácil ou do jeito difícil, e no jeito difícil eu corto você.”)

Eu permaneço, sinceramente, o tipo de mulher que fica muito mais feliz em entregar o controle, ou ao menos a tomada de decisões, a um médico com uma maior expertise. Essa é a minha escolha, minhas experiências, porém, sempre foram positivas. Mas e o que dizer das mulheres que não são como eu? O que dizer dos médicos encarregados de cuidar delas, ou não, conforme o caso?

Drª. Amali Lokugamage é consultora obstétrica e faz parte do corpo docente sênior de um dos principais hospitais de Londres. Ela contribui com uma poderosa opinião médica para a campanha Freedom for Birth e identifica um clima ainda mais contrário aos riscos onde o medo – tanto de falhar quanto de ser processado – encontra-se em primeiro lugar na mente dos médicos. Nesse ambiente, se eu fosse uma médica, estaria assustada.

“Não há dúvidas de que há uma epidemia de intervenções”, diz Lokugamage. “Mas os estudantes de medicina de hoje veem poucos casos comuns. Quando só se vê, durante seu treinamento, tanta doença e desastre, isso distorce a sua perspectiva e naturalmente te faz sentir medo do parto. O Conselho Geral de Medicina (General Medical Council) afirma que os médicos precisam ser treinados com base nas experiências dos pacientes, o que significa basicamente permanecer ao redor do paciente e analisar o seu ponto de vista. Esse tipo de humanismo traz um novo tipo de determinante social na saúde.”

“Até eu ter o meu primeiro bebê, eu não tinha ideia de que o parto poderia ser uma experiência espiritual – porque tudo o que eu sempre vi foram problemas. É por isso que a maior parte dos obstetras e ginecologistas diz que escolheriam uma cesariana para si mesmos ou para suas esposas. Eles não estão mais vendo partos fisiológicos inspiradores. Essas experiências, como os benefícios da ocitocina natural, não são publicados em revistas de medicina. Os médicos não estão lendo sobre partos fisiológicos.”

“Combinado a isso, há esse medo real nos médicos de saber: ‘Quem é que vai pagar o pato se algo der errado?’ Também os próprios médicos, muitos deles, estão passando por um leve estresse pós-traumático. Se você já presenciou um caso muitíssimo raro de uma mulher morrendo em uma piscina de sangue – um risco extremamente pequeno – você fará então todo o possível para evitar ao máximo que isso aconteça novamente. Mas o resultado geralmente é pior para a mãe e a taxa de risco raramente é explicada.”

Louisa Noel, ainda tentando se recuperar de um parto traumático acontecido há 18 meses, declara que sentiu ter perdido o controle sobre o seu corpo conforme as intervenções se multiplicavam. “Senti como se estivesse sendo rasgada. As coisas sendo feitas em mim e eu continuava pensando: ‘Estou em um filme de terror – como vou escapar disso?’ Eu era uma linguiça em uma fábrica de linguiças e não me sentia segura. Eu penso nisso todos os dias e estou presa a uma situação em que devo lutar para me libertar.”

Esta importância de fornecer informações completas que permitam às mulheres pesar o risco para si mesmas foi citada várias vezes pelas mães com quem conversei. Sally é uma cientista habituada a trabalhar com base em evidências. Quando os médicos do hospital lhe disseram que precisavam induzir o parto porque ela tinha pouco líquido amniótico, ela perguntou sobre as evidências do risco; ela me disse que o médico respondeu com “um profundo suspiro, como se quisesse dizer: ‘Ai, vai começar tudo de novo.’”

“Não havia qualquer evidência sólida”, conta Sally. “Então eu acabei fingindo que saí para comprar um sanduíche e fugi.”

“Tem esse pressuposto”, diz Lokugamage, “de que os médicos são todos cientificamente integrados, mas se você olhar as diretrizes norte-americanas – onde os índices de cesáreas são bastante altos – apenas 30% delas são baseados em evidências de grau A”.

Lokugamage tem esperança de que a próxima geração será mais bem informada: ela está trabalhando em seu programa de ensino sobre os benefícios do parto fisiológico. “Mas ainda precisaremos de mais uma década para conseguir mudanças significativas”, ela diz. “Há esperança. Há essa oportunidade de educar médicos dessa maneira. Mas basicamente, no tocante aos direitos humanos, a lei é, no momento, a única maneira de conseguir o tipo de parto que você quer.”

Prochaska acredita que as mães, ao fazerem suas próprias decisões, aliviarão a carga para médicos e obstetrizes: “Certamente, não seria um ponto positivo para eles também ter uma mãe fazendo sozinha as escolhas apropriadas e baseadas em informações? Muitos diriam: ‘Graças a Deus. Eu não estou assumindo toda essa responsabilidade!’ O que precisamos é de diálogos colaborativos e baseados em evidências.”

Alex Wakeford, co-realizadora do filme Freedom for Birth, termina com uma frase da campanha: “Esperamos que milhões de mulheres tenham consciência de seus direitos legais. Não para criar um ponto de vista cômodo. Mas isso tem o poder de espalhar uma revolução na assistência ao parto em todo o mundo.” E completa: “De fato, estamos chamando esse movimento de a Revolução das Mães.”

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Crianças no balé

Escrito por Kim John Payne

Original em inglês publicado no livro

Games Children Play: How Games and Sport Help Children Develop

e reproduzido no site Movement for Childhood

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

Assim como a ópera, o balé é uma das formas clássicas de arte. E por que é assim? E por que tantas crianças fazem aulas de balé clássico?

Foto de khongkitwiriyachan do site FreeDigitalPhotos.net

O balé é uma forma altamente estilizada de movimento, talvez a mais estilizada. Enquanto um ser humano comum consegue chutar, bater ou quicar uma bola, dar socos ou lutar, talvez até rolar no chão ou dar uma estrela, há pouquíssimas pessoas que conseguem se mover como um bailarino clássico. Isso não surpreende, pois esse é exatamente o objetivo do balé. Os movimentos são elaborados para parecer não apenas graciosos, mas também para elevar a plateia para longe da existência terrena. Além disso, um aspecto do balé é que ele é quase totalmente centrado nos espectadores. Certamente os bailarinos têm sensações – especialmente a dor! – mas eles não devem comunicá-las ao espectador. Eles devem fazer parecer como se a terra, com todos os cuidados e limitações, não existisse. A gravidade é superada e negada. O bailarino parece nos jogar em outra dimensão.

Essa negação da gravidade mostra-se de muitas maneiras. A mais óbvia é o tutu e as vestimentas em geral. O tutu sai da cintura e forma uma faixa de babados em volta da bailarina. Ele exibe uma distinção clara entre a parte do corpo que fica em evidência acima da cintura, geralmente vestido de forma chamativa e atrativa; e a parte de baixo do corpo, quase sempre adornadas somente com meias-calças. O tutu enfatiza a parte superior do corpo da bailarina e também a impede de ver suas próprias pernas e pés.

A postura toda do bailarino é desenvolvida e sustentada pelos músculos, sobretudo do abdome e das pernas. As bailarinas passam horas dolorosas aprendendo a posição de ponta, na qual as articulações dos dedões são forçadas a carregar todo o peso do corpo, deformando os pés. Isso aumenta a ilusão de leveza, enquanto apenas uma área mínima está em contato com o chão, reforçando a impressão de uma atitude de sentido oposto à terra – quanto menos contato físico com o chão, melhor. O movimento dos pés em pequenos passos parece fazer flutuar a parte superior do corpo. Ou as bailarinas são jogadas e saltam alto no ar, parecendo planar como um pássaro. O olhar é direcionado para cima e além. Os movimentos dos braços geralmente começam na cintura e vão para cima, raramente descendo abaixo do tutu. Uma cópia do estilo do movimento fácil e leve de uma criança.

Então as apresentações de balé, particularmente desde a revolução industrial, foram encorajadas a deixar o mundo para trás, com todo o seu crescente materialismo e mecanização, e ser transportados a esferas mais graciosas. Quem não apreciava essa forma de arte era considerado filisteu, alguém que era excluído dos aspectos mais nobres da vida cultural.

Na verdade, o movimento de uma criança e a sua intenção interior, especialmente nas brincadeiras, não poderiam ser mais diferentes do movimento do bailarino. Enquanto este passa horas treinando para alcançar uma leveza baseada na técnica, a criança se move com uma efervescência e uma flutuabilidade tão lindas quanto inconscientes. Os movimentos dos dançarinos clássicos são altamente estilizados. Os das crianças são totalmente naturais. O bailarino faz uma nítida divisão entre a experiência interior e o que pode ser observado externamente. A criança não conhece tal divisão: a maneira como ela se move é fortemente motivada por seu sentimento. Enquanto o bailarino lida com a abstração, a criança está imersa na realidade. Os movimentos do dançarino clássico são cuidadosamente dirigidos, os da criança, são espontâneos. O dançarino move-se para a apreciação de uma plateia, a criança brinca porque é sua expressão natural da vida. O objetivo da bailarina é elevar-se acima da existência terrena. As energias da criança são completamente opostas: ela quer aprender sobre o mundo e fazer parte dele.

O trecho seguinte é do livro “The Art of the Dance” (A arte da dança, em tradução livre) de Isadora Duncan.

A escola de balé de hoje produz um movimento estéril que não gera movimentos novos, mas que morrem quando são produzidos; pois luta inutilmente contra as leis naturais da gravidade ou contra a vontade natural do indivíduo e trabalha sua forma e movimento em desarmonia com a forma e o movimento da natureza.

Na expressão do balé moderno, cada ação tem um objetivo e nenhum movimento, pose ou ritmo é sucessivo ou pode ser feito para envolver ações sucessivas. É uma expressão de degeneração, de morte viva. Todos os movimentos de nossa escola de balé moderna são movimentos estéreis porque não são naturais. Seu propósito é criar a ilusão de que a lei da gravidade não existe para eles.

Os movimentos primários ou fundamentais da nova escola de dança devem ter dentro de si as sementes que envolveram todos os outros movimentos, cada um de uma vez para dar lugar a outros em uma sequência infinita de expressões, pensamentos e ideias ainda mais altos e melhores.

Para aqueles que, entretanto, ainda apreciam os movimentos por razões históricas, coreográficas ou quaisquer outras razões, para esses eu respondo: não se vê além de suas saias e malhas. Mas olhe, por baixo das saias e das malhas estão dançando músculos deformados. Olhe ainda mais atentamente: um esqueleto deformado está dançado diante de você. Essa deformação proveniente de vestimentas e de movimentos inadequados é resultado do treinamento necessário ao balé.

O balé condena a si mesmo ao reforçar a deformação do lindo corpo da mulher! Nenhuma razão histórica nem coreográfica pode prevalecer a isso!

A missão de toda arte é expressar os ideais mais altos e mais lindos do homem. Qual ideal o balé expressa?

Encorajar crianças a praticar balé é impor um conceito adulto de beleza a elas, que não têm necessidade disso. Se a criança for repetidamente exposta a essa forma de treinamento, ela vai, por fim, começar a adotar os valores adultos dos bailarinos. E isso significa convidar distúrbios emocionais e limitar a experiência de uma infância plena.

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Ebola: emergência internacional de saúde pública

Original em francês publicado no Le Monde em 08 de agosto de 2014

(atualização das 11h08 – horário de Brasília)

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

Foto: Wikipedia

ebola virus Vírus ebola

Após dois dias de reunião, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou hoje, (8 de agosto) que o vírus ebola representa uma “emergência de saúde pública de alcance mundial”. Diante de uma situação que continua a se agravar, é necessário que haja uma “resposta internacional coordenada” a fim de “parar e diminuir a propagação internacional do ebola”, considerou o comitê.

De acordo com o último balanço da OMS, num total de 1711 casos (confirmados, suspeitos ou prováveis), estão 932 mortos em consequência do vírus: 363 na Guiné, 282 na Libéria, 286 em Serra Leoa e dois na Nigéria. Esta é a epidemia mais grave desde a descoberta da febre hemorrágica, em 1976.

Na Libéria, profissionais da saúde ameaçam entrar em greve

O exército liberiano recebeu ordens de limitar a movimentação da população e controla rigidamente os acessos à capital Monróvia pelas províncias vizinhas. Centenas de pessoas foram bloqueadas pelas barragens militares entre a capital e o norte do país. A presidente do país, Ellen Johnson Sirleaf declarou estado de emergência por 90 dias.

O sindicato dos profissionais de saúde, por outro lado, ameaça entrar em greve se o governo não fornecer o material necessário contra o ebola. “Não temos luvas, nem roupas especiais, nem outros equipamentos necessários”, declarou Deemi Dearzrua, secretário geral do sindicato.

Em Serra Leoa, locais de lazer são fechados

O porta-voz do governo, Abdulai Bayratay, anunciou que as cidades de “Kenema e Kailahun foram colocadas em quarentena”. Segundo ele, essa medida pode durar de 60 a 90 dias.

Além disso, a presidência serra-leonesa limitou a circulação de moto-táxis das 7h às 19h e determinou o fechamento imediato das casas noturnas, salas de cinema e cineclubes. Outra exigência é que “os mortos em decorrência do ebola devem ser sepultados no local em que se deu a morte”. O país está em estado de emergência desde o dia primeiro de agosto.

Na Nigéria, greve nos estabelecimentos de saúde é suspensa

Os médicos dos hospitais públicos da Nigéria, em greve desde o dia primeiro de julho, anunciaram ontem (7 de agosto) a suspensão do movimento, devido à gravidade da situação. Uma segunda pessoa morreu da doença, depois de ela mesma ter se arriscado cuidando do primeiro doente que sucumbiu ao vírus no país.

Em Lagos, a cidade mais populosa da África subsaariana, com mais de 20 milhões de habitantes, cinco casos confirmados foram colocados em quarentena. O ministério da saúde anunciou que fará um controle de passageiros de linhas aéreas que saem do país, para evitar qualquer propagação do vírus.

Os Estados Unidos levantam restrições sobre tratamento experimental

Diante da epidemia, os apelos por medidas extraordinárias se multiplicam, suscitando uma polêmica sobre uma eventual utilização de tratamentos promissores ainda experimentais. A agência reguladora de medicamentos norte-americana (FDA) decidiu, assim, levantar parcialmente restrições sobre o TKM-Ebola da empresa canadense Tekmira.

Os dois norte-americanos infectados na Libéria e repatriados aos Estados Unidos foram tratados com outro soro experimental chamado ZMapp da empresa norte-americana Mapp Biopharmaceutical.

Por outro lado, autoridades do país julgaram “inevitável” que pessoas que tenham viajado para países africanos e tenham sido expostas à epidemia entrem infectadas nos Estados Unidos. Mas afirmaram não temer uma epidemia tão intensa no país.

Teste negativo para um dos dois repatriados espanhóis

De acordo com autoridades sanitárias, a missionária de 65 anos que foi repatriada ontem para a Espanha com o padre contaminado pelo ebola parece não portar o vírus. O resultado do exame foi negativo. Ela fará novos exames em quatro dias.

Na Grécia, uma pessoa tem sintomas similares aos do ebola

Um paciente grego, ao voltar da Nigéria, apresenta sintomas análogos aos do vírus ebola. Ele se apresentou ao hospital e se submeteu ontem a exames médicos em Atenas. Um outro caso suspeito foi diagnosticado ontem como malária, segundo o ministério da saúde da Grécia.

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Não gostamos de ficar sozinhos pensando

Escrito por Heidi Ledford

Original em inglês publicado na revista Nature em 3 de julho de 2014.

Tradução: Luciana Nascimento Fernandes

Foto: Jean de Calan

 Le Penseur

O Pensador, escultura de Auguste Rodin, no Musée Rodin, Paris.

 Muitas pessoas prefeririam suportar dor física a aguentar suas próprias reflexões

O que você preferiria: dor ou tédio?

Muitas pessoas preferem aplicar-se pequenos choques elétricos do que ficar sentadas sem ter o que fazer numa sala por 15 minutos. É o que mostrou um estudo publicado na revista Science em 3 de julho de 2014.

Segundo psicólogos, os resultados são um atestado do nosso desconforto com nossos próprios pensamentos e do desafio que nós enfrentamos quando tentamos controlá-los.

“Ficamos desconfortáveis só de ficarmos sozinhos com nossos pensamentos”, diz Mayla Mason, psicóloga da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, que não estava envolvida no estudo. “Estamos constantemente olhando para o mundo lá fora para nos entretermos”, ela completa.

Em busca de distração

Foi essa observação que levou o psicólogo Timothy Wilson da Universidade de Virgínia em Charlosttesville e sua equipe a embarcar nesse estudo. Wilson e seus colegas começaram pedindo a universitários para esconderem seus celulares e outras distrações e sentarem-se em uma sala vazia por até quinze minutos. Depois disso, quase metade dos 409 participantes disse não ter gostado da experiência.

Os pesquisadores ficaram surpresos. “Temos este cérebro enorme cheio de lembranças agradáveis e que tem a habilidade de contar estórias e fantasiar”, diz Wilson, que sempre se distrai imaginando ser um náufrago numa ilha deserta, quando está tentando dormir. “Não deveria ser tão difícil”, ele opina.

A equipe de pesquisadores tentou tornar a tarefa mais fácil. Eles decidiram que um cenário mais confortável poderia tornar a experiência mais agradável. Então repetiram o experimento, mas dessa vez deixaram que os participantes fizessem o exercício em casa. Cerca de um terço das pessoas estudadas admitiram ter trapaceado.

Os pesquisadores pensaram que talvez fosse muito difícil para os participantes definirem um assunto para pensar. Mas pedir que eles escolhessem um assunto com antecedência também não adiantou.

Desconforto chocante

Se a experiência foi muito desconfortável? No experimento seguinte, os participantes levaram um pequeno choque elétrico – similar a um choque de eletricidade estática. Foi tão desconfortável que três quartos deles disseram que prefeririam pagar para não tomar aquele choque novamente. Mas quando foram colocados na sala para sentarem-se sozinhos com seus pensamentos, 67% dos homens e 25% das mulheres estavam tão ansiosos para encontrar algo a fazer que tomaram o choque por vontade própria.

Wilson supõe que o desconforto venha de uma falta de controle da mente, que seja difícil dizer à nossa mente para permanecer num assunto por um tempo longo. As pessoas que declararam ter tido uma experiência positiva durante o experimento tendiam a pensar em acontecimento futuros, geralmente com pessoas amadas. Aqueles que não gostaram do tempo para reflexão silenciosa pensaram em trabalho.

Essa dificuldade não está limitada a universitários. Os resultados foram mantidos quando os pesquisadores repetiram os experimentos com um grupo de pessoas com idades mais abrangentes selecionadas em uma igreja e em um mercado de produtores.

Para a psicóloga Mason, os participantes seriam beneficiados se tivessem tido mais instruções sobre o que pensar – como, por exemplo, se eles tivessem sido instruídos não apenas a escolher um assunto para pensar, mas também a elaborar um plano mais estruturado de onde retirar seus pensamentos. “Não é suficiente dar um ponto de partida para as pessoas”, ela diz. “Elas precisam de uma direção para seguir”.

Wilson pretende procurar caminhos para treinar o que ele chama de “mente desconectada”. Segundo ele, “há muitas situações em nossa vida diária em que temos um pouquinho de tempo livre, quando estamos presos no trânsito ou tentando dormir, por exemplo”. E conclui: “Seria muito útil ter essa ferramenta em nossa mente como uma forma de acabar com o estresse ou de reduzi-lo”.

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Um passeio no bosque: Direito ou privilégio?

Escrito por Richard Louv
Original em inglês publicado na Orio Magazine, edição de março/abril – 2009.
Tradução e foto: Luciana Nascimento Fernandes

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Alguns anos atrás, eu visitei a escola Southwood de Ensino Fundamental, que frequentei quando era menino na cidade de Raytown, no estado de Missouri (EUA). Perguntei às crianças da sala como era o relacionamento delas com a natureza. Muitos deram uma resposta típica dos dias de hoje: preferem jogar vídeo-games e atividades internas. Quando estão ao ar livre, jogam futebol ou algum outro esporte em equipe, geralmente direcionado aos adultos. Mas uma aluna do quinto ano, descrita pela professora como “nossa pequena poetisa”, usando um vestido estampado simples e com uma expressão profundamente séria, disse: “Quando eu estou no bosque, eu me sinto na pele da minha mãe”. Para ela, a natureza representava beleza, refúgio e algo mais.

“É tão tranquilo lá fora e tem um cheiro tão bom no ar. Para mim, é um lugar completamente diferente”, ela disse. “É um momento todo meu. Às vezes vou lá quando estou brava – e então, só com a paz e tranquilidade da natureza, eu me sinto melhor. Eu volto para casa feliz e minha mãe nem sabe por quê”. Ela fez uma pausa. “Eu tinha um lugar. Tinha uma cachoeira grande e um riacho. Eu tinha cavado um buraco e às vezes eu levava uma barraca ou um lençol e eu me deitava lá, no buraco, e olhava para cima, vendo as árvores e o céu. Às vezes eu até pegava no sono. Eu me sentia livre: aquele era o meu lugar e eu podia fazer o que eu quisesse, sem ninguém para me impedir. Eu ia lá quase todos os dias”. O rosto da jovem poetisa ficou vermelho. Sua voz enfraqueceu. “E então, simplesmente cortaram as árvores. Foi como se tivessem cortado uma parte de mim”.

Este último comentário me atingiu como um golpe: “Foi como se tivessem cortado uma parte de mim”. Se a hipótese de Edward Osborn Wilson sobre a biofilia estiver correta – a de que os seres humanos foram feitos para molhar suas mãos e enlamear seus pés na natureza – então a declaração sincera da pequena poetisa foi mais do que uma metáfora. Quando ela se referiu ao bosque como “uma parte de mim”, ela estava descrevendo algo impossível de ser quantificado: a sua biologia primordial, seu senso de admiração, uma parte essencial de si mesma.

Recentemente, eu comecei a perguntar aos meus amigos: “Uma criança tem o direito de passear na floresta? E um adulto?”. Para minha surpresa, várias pessoas responderam com confusas hesitações. “Vejam o que a nossa espécie está fazendo ao planeta”, disseram. Olhando somente por esse lado, o relacionamento entre seres humanos e natureza não seria inerentemente oposicionista? Eu certamente entendo esse ponto de vista. Mas considerem a resposta favorável daqueles que estão em outro ponto da esfera político-cultural, para quem a natureza é objeto da soberania humana, uma distração no caminho para o Paraíso. Na prática, estas duas visões da natureza são radicalmente diferentes. A semelhança entre as elas, no entanto, é impressionante: a natureza permanece no “outro”. Os seres humanos estão nela, mas não fazem parte dela.

O conceito básico dos direitos deixou algumas pessoas pouco à vontade. Um amigo me perguntou: “Em um mundo onde milhões de crianças são brutalizadas todos os dias, nós somos capazes de separar um tempo para envolvê-las na fruição da natureza?”. Boa pergunta. Outras pessoas apontaram que vivemos numa era em que há inflação de litígios e deflação de direitos. Muitos acreditam que têm “direito” a uma vaga de estacionamento, “direito” a TV a cabo, e até mesmo “direito” a morar em um bairro sem crianças. Precisamos mesmo acrescentar mais “direitos” à nossa lista? Uma outra boa pergunta.
A resposta às duas indagações é “sim”, desde que nós concordemos que o direito em questão seja fundamental para a nossa humanidade, para a nossa existência.

A ciência comprova que o contato com o mundo natural tem forte influência na saúde física e emocional e na habilidade de aprendizado das crianças. Níveis de estresse, transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), funções cognitivas, entre outros, são afetados positivamente pelo tempo passado na natureza. Howard Frumkin, diretor do Centro Nacional para a Saúde Ambiental nos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (National Center for Environmental Health at the Centers for Disease Control and Prevention), diz que “da mesma forma que preservar a água e o ar são estratégias para promover a saúde pública, proteger paisagens naturais pode ser uma poderosa forma de medicina preventiva”. Em outubro de 2008, pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Indiana e da Universidade de Washington relataram que as crianças que vivem em bairros mais arborizados têm um menor ganho de massa corpórea, independentemente da densidade habitacional. Tal pesquisa será de utilidade incalculável se nós repensarmos a forma como lidamos com a arquitetura urbana, com a educação e com a assistência médica, particularmente em relação ao modo como a sociedade encara a obesidade infantil.

“Sim, nós precisamos de mais pesquisas”, diz Frumkin, “mas já sabemos o suficiente para agir”. Para reverter os caminhos que desconectam as crianças da natureza, as ações devem ser baseadas na ciência, mas também profundamente enraizadas na terra.

Em 2007, em Washington DC, aconteceu o Fórum Nacional sobre Crianças e Natureza, um impressionante encontro de prefeitos, professores, conservacionistas e líderes empresariais para explorar a falta de ligação entre as crianças e a natureza. A discussão foi esclarecedora, até mesmo apaixonada. Mas, com o passar das horas, muitos dos participantes pediram a apresentação de estatísticas. Alguns procuravam um modelo para colocar em prática o desafio de apresentar as crianças ao mundo natural. A maioria via a necessidade óbvia de mais pesquisa. “Eu gosto dessa discussão, mas gostaria de dizer algo”, anunciou Gerald L. Durley, pastor titular de uma igreja batista em Atlanta. Durley ajudou a fundar a Organização Cultural Afro-Americana e trabalhou lado a lado com Martin Luther King Jr. Ele deu um passo à frente e disse: “Um movimento se move. Ele tem vida”.
E acrescentou: “Como todo movimento de sucesso, a luta pelos direitos civis foi alimentada por um princípio moral fortemente articulado, que não precisava ser provado a todo instante. O resultado do movimento a favor dos direitos civis poderia ter sido bem diferente, ou ao menos mais lento, se os seus líderes tivessem esperado por mais provas estatísticas para justificar a sua causa, ou se eles tivessem focado na métrica dos protestos nos restaurantes contra a segregação racial. Alguns esforços provaram-se eficazes, alguns foram contraproducentes. Mas o movimento se moveu”.

De acordo com meu amigo Larry Hinman, professor de filosofia na Universidade de San Diego, “ao elaborar uma argumentação moral, não há regras rigorosas. E tais argumentações podem sempre ser contestadas”. “Mas”, ele complementa, “a maioria dessas argumentações é feita baseando-se em um ou dois pontos, que incluem uma série de consequências e um preceito inicial – o respeito aos direitos humanos, por exemplo”. A ciência mostra quais são as consequências de inserir as crianças na natureza. Estudos que apontam benefícios à saúde e à cognição são palpáveis e concretos. Também precisamos articular o “preceito inicial” implícito – que emerge não apenas do que a ciência pode provar, mas também do que ela não consegue revelar completamente, que resiste à codificação por ser tão elementar, tão simples: uma conexão significativa com o mundo natural é fundamental para o nosso espírito e para a nossa sobrevivência como indivíduos e como espécie.

Há pouco tempo Thomas Berry apresentou esta indivisibilidade entre o ser humano e a natureza de maneira mais eloquente. Padre da ordem dos Agostinianos e fundador do Programa de História das Religiões na Universidade de Fordham e do Centro de Pesquisa Religiosa de Riverdale, Berry1 foi presciente pela maior parte dos seus noventa e quatro anos no planeta. Ele incorporou a visão biológica de Wilson dentro de um contexto mais amplo e cosmológico. Em seu livro The Great Work (O Grande Trabalho, em tradução livre), escreveu: “A urgência atual é começar a pensar dentro do contexto do planeta como sendo um todo, a comunidade Terra em sua integralidade com todos os seus humanos e outras espécies que a compõem. Quando discutimos ética, devemos entendê-la para exprimir os princípios e os valores que governam essa abrangente comunidade”.

Berry acreditava no mundo natural como sendo a manifestação física do divino. A sobrevivência tanto da religião quanto da ciência não depende da vitória de uma das duas (porque assim ambas sairiam perdendo), mas na emergência do que ele chama de uma terceira história, a história do século XXI. Falar sobre as totalidades pode ser um assunto desconfortável. Mas, certamente, é verdade que, como uma sociedade, precisamos devolver a natureza aos nossos filhos. Não fazer isso é imoral. É antiético. “Um habitat degradado produzirá humanos degradados”, escreveu Berry. “Se realmente houver algum progresso, então toda a vida em comunidade há de progredir”.

Na formação dos ideais norte-americanos, a natureza era um elemento fundamental da concepção de direitos humanos. A seguinte hipótese era inerente ao pensamento dos líderes da independência dos EUA: cada direito traz um dever. Se falharmos em servir como administradores cuidadosos tanto da democracia como da natureza, destruiremos a razão do nosso direito e o direito propriamente dito. Aqueles de nós que nos identificamos como conservacionistas ou ambientalistas (qualquer que seja a palavra que queiramos usar) quase sempre tivemos alguma experiência transcendental no mundo natural, geralmente através de uma brincadeira livre, com as mãos sujas de lama e os pés molhados. Nós não podemos amar o que nós não conhecemos. Como o zoólogo Robert Michael Pyle coloca tão bem: “Qual o significado da extinção de um condor para uma criança que nunca viu um pardal?”.

Nós devemos fazer mais do que falar sobre a importância da natureza. Devemos assegurar que todas as crianças, não importa onde morem, tenham acesso diário a lugares e experiências naturais. Para fazer isso acontecer, deve-se tornar evidente a seguinte verdade: nós poderemos verdadeiramente amar a natureza e a nós mesmos somente se nos enxergarmos como sendo parte integrante dela. Somente se nos amarmos como parte da natureza. Somente se acreditarmos que nossas crianças têm o direito às dádivas da natureza preservada.

Aquela menininha em Raytown pode não ter um direito específico sobre aquela árvore em particular no bosque que ela escolheu. Mas ela tem, sim, o direito intransferível de estar junto a outra vida; o direito à liberdade (que não deve ser compreendida como uma protetora prisão domiciliar); e o direito à busca pela felicidade, que o universo encarregar-se-á de completar.

1 N.T.: Thomas Berry faleceu em junho de 2009, poucos meses depois da publicação do texto original de Richard Louv ser publicado na Orion Magazine. Berry completaria 95 anos de idade no mês de novembro daquele ano.

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Suécia, mas que lixo?

Escrito por Jane Zhang

Original em francês publicado no site

http://www.lejournalinternational.fr/Suede-mais-quelles-ordures_a694.html

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

ImagemFoto: Lars Ekelund

Usina Gärstadverken, na cidade de Linköping, Suécia: incineração de resíduos para geração de energia.

Fonte: http://www.folkbladet.se/Print.aspx?ArticleID=5067732

A Suécia, país híper-ecológico, onde um milhão de lares são abastecidos com eletricidade gerada pela queima de resíduos, está diante de um dilema: ela não tem mais combustível suficiente.

A Suécia, terceiro país mais desenvolvido do mundo segundo as Nações Unidas1, tem um problema extraordinário. Seus 9,5 milhões de habitantes reciclam com tanto rigor que falta lixo para manter suas usinas de incineração que geram eletricidade. Em relação ao restante da Europa, que recicla em média 38% de seus resíduos, a Suécia gerencia (recicla, composta e incinera) 96% do lixo produzido2.

Mais detalhadamente, 36% dos resíduos são reciclados, 14% compostados e 49% incinerados. É a taxa mais alta da União Europeia, depois da Dinamarca – que incinera mais de 54% de seu lixo. Dizendo de outra maneira, quase a metade dos rejeitos suecos queima nos incineradores ou nos “centros de valorização energética”, cada vez mais atuantes. Essa queima de resíduos produz atualmente energia suficiente para aquecer 810 mil lares (o equivalente a 20% do aquecimento urbano do país) e ainda fornece energia elétrica para outras 250 mil casas, de um total de 4,6 milhões de famílias.

O problema, se é que podemos chamá-lo assim, é que a Suécia é muito obstinada em triar seu lixo e muito atuante nessa área. Sua capacidade de incineração é bem superior aos seus dois milhões de toneladas de resíduos produzidos a cada ano. Para manter suas usinas em funcionamento e evitar a perda de dinheiro, Estocolmo, por exemplo, decidiu importar 800 mil toneladas de lixo por ano, vindas de diversos países europeus – no momento, vem essencialmente do vizinho norueguês.

Embora o preço da incineração na Noruega ainda seja muito alto para ser rentável, a troca, na verdade, favorece a Suécia. A Noruega paga ao país vizinho para levar o seu lixo, a Suécia o queima para gerar aquecimento e eletricidade, e as cinzas tóxicas que sobram são devolvidas aos depósitos de lixo da Noruega. Em resumo, os suecos ganham dinheiro e energia, enquanto os noruegueses retomam os rejeitos propriamente ditos.

Muito bem, Suécia!

Por outro lado, a Suécia é assim tão limpa como se mostra? É evidente que a incineração de resíduos em larga escala traz a questão lógica da emissão de poluentes e de seus riscos. No conjunto, a Suécia faz de tudo para apresentar uma “ficha limpa”. A partir dos anos 1980, o Estado Sueco instaurou uma regulamentação estrita, regulamentando suas emissões, o que levou a uma redução de cerca de 90% das mesmas. Por exemplo, as emissões de cloreto de hidrogênio (HCl) – um gás incolor tóxico e corrosivo – foram reduzidas drasticamente de 8,4 mil toneladas emitidas em 1985 para 60 toneladas em 2007. As emissões de óxidos de enxofre (SOx) – a principal causa de chuvas ácidas – passaram então de 3,4 mil para 196 toneladas. As emissões de chumbo foram mais que reduzidas, passando de 25 toneladas para 51 quilos por ano.

Entretanto, as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx), que incluem o monóxido de nitrogênio (NO) e o dióxido de nitrogênio (NO2), continuam elevadas apesar das diminuições, causando impactos ambientais como efeito estufa, acidificação do ar e chuvas ácidas. As emissões de óxidos de nitrogênio ainda chegavam a 2,1 mil toneladas em 2007, contra 3,4 mil em 1985.

É verdade que essa é apenas uma pequena crítica ao 74º emissor mundial de CO2. Ora, o dia em que a Suécia baixar suas emissões de óxidos de nitrogênio, talvez seus felizes lixeiros voltem sua atenção para a Grande Porção de Lixo do Pacífico. Uma perspectiva que responderá às suas necessidades nacionais, e quem sabe, poderá resolver o problema da gestão de resíduos em escala mundial.

1 N.T.: A Suécia é a sétima nação mais desenvolvida segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2013 (RDH 2013), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), publicado em março do ano passado.

2 N.T.: Segundo site oficial do país, a Suécia já gerencia 99% de seu lixo.

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Slow Parenting – Desacelerando a educação dos filhos

Escrito por Abby Quillen

Original em inglês publicado no site

http://newurbanhabitat.com/2009/11/29/slow-parenting/

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

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Eu tive aulas de natação e de piano e participei de alguns grupos na escola, mas quando eu penso na minha infância, é dos momentos de lentidão de que me lembro – dias de verão infinitamente longos; conversas com meus pais que pareciam poder durar para sempre; calmas tardes de leitura, de divagação, de sonhar acordada e de brincar.

Algumas das minhas amigas tinham aulas de ginástica, futebol ou participavam do grupo de bandeirantes. Mas todas nós tínhamos um grande tempo desestruturado em nossos dias. Nós passávamos nossos verões em passeios de bicicleta por toda a cidade (sem capacetes), caminhando até o clube ou perambulando em grupos, de quintal em quintal, até a hora do jantar.

Minha mãe, meu pai, minha irmã e eu também passávamos incontáveis horas contando histórias, saindo para caminhadas, trilhas, acampamentos, jogando jogos de tabuleiro e simplesmente ficando juntos.

E todos esses momentos aparentemente vagarosos culminaram em algo importantíssimo: a minha infância.

A propagação dos Super-Pais

Aparentemente, nos últimos vinte anos, quando eu não estava prestando atenção, as infâncias como a minha foram extintas. De acordo com o artigo The Growing Backlash Against Over Parenting (algo como “O crescente contra-ataque à super-proteção), publicado na revista Time por Nancy Gibbs em novembro de 2009, “a super-proteção e o superinvestimento de mães e pais” aumentou em proporções quase cômicas.

Gibbs escreve que os pais começaram a comprar joelheiras para os bebês e a rodear seus adolescentes; a proteger suas crianças de cada tombo, arranhão ou nota ruim; e a pressionar os filhos a conseguir cada vez mais com cada vez menos idade. Ela escreveu que os pais modernos estão criando filhos que são ou como “xícaras de chá” – sujeitos a se quebrar a cada pressão – ou como “torradas”, já “ressequidos” no momento em que forem para a faculdade.

Eu não posso dizer que fiquei monitorando as tendências na educação de filhos nas últimas décadas. Mas quando penso nisso, vários dos novos pais que eu conheço matriculam suas crianças em algumas aulas: dança, natação, música e língua de sinais. E eu ouço com freqüência os pais se lamentarem por não poderem deixar seus filhos mais velhos caminharem até a escola ou brincarem sozinhos no jardim porque “não é mais como antigamente”. E um professor de faculdade que eu conheço entretém seus amigos com estórias de deixar o cabelo em pé sobre pais que telefonam pedindo para ele mudar a nota de seus filhos.

O contra-ataque

Segundo Gibbs, uma reação está borbulhando contra toda essa aceleração. Alguns pais e defensores estão clamando pelo retorno da criação de filhos mais desacelerada e tranqüila, como foi a minha. Estão chamando esse movimento de Slow Parenting, Free-Range Parenting, ou Simplicity Parenting.

Carl Honoré, autor dos livros “Devagar – Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade” (Editora Record, 350 páginas) e “Sob Pressão – Criança nenhuma merece super-pais” (Editora Record, 368 páginas), tem inspirado muitos devotos do Slow Parenting (embora ele não use efetivamente o termo em seus livros). Ele definiu o que é Slow Parenting numa entrevista com Lisa Belkin para o blog Motherlode, do New York Times.

Slow Parenting é trazer equilíbrio para o seu lar. As crianças precisam esforçar-se, lutar e machucar-se, mas isso não quer dizer que a infância deva ser uma corrida. Os pais desacelerados dão aos seus filhos tempo de sobra e espaço para explorar o mundo do jeito das crianças. Esses pais mantêm os horários da família sob controle de modo que todos tenham tempo para descansar, refletir e simplesmente ficar juntos. Eles aceitam que fazer o impossível para dar às crianças o melhor de tudo nem sempre é a melhor atitude. Slow Parenting significa permitir aos nossos filhos que desenvolvam quem eles são e não quem nós queremos que eles sejam”.

Carrie Contley e Bernadette Noll, que comandam o blog Slow Family Living e ministram aulas e oficinas, escrevem que Slow Parenting é:

“permitir que a vida familiar se desenvolva de forma que esteja conectada alegre e conscientemente. Isso significa desacelerar, encontrar conforto em casa e criar o espaço para ver e honrar a família como uma entidade, mantendo, simultaneamente, a visão de cada membro como um indivíduo único e valioso”.

Desacelerando a vida familiar

Quando o meu filho nasceu, um ano e meio atrás, eu fiquei um pouco chocada que meu marido e eu continuássemos nessa mesma trilha. Meu menino não teria o mesmo tipo de infância que eu tive.

Tanto eu quanto meu marido trabalhávamos período integral e em horários completamente opostos. Então o tempo que teríamos como família seria quase nulo. Meu filho ficaria na creche. Nossas manhãs seriam um frenesi. Nós estaríamos em frangalhos à noite. E haveria muito poucas daquelas tardes longas fazendo biscoitos, projetos de arte ou lendo livros juntos, porque eu tinha listas de afazeres e lugares para ir que se acumularam durante a semana. Meu marido e eu passamos a maior parte do primeiro ano de nosso filho reorganizando nossas vidas de forma que pudéssemos ter uma vida familiar mais desacelerada e mais conectada.

Então estou emocionada que outros pais estejam questionando se as crianças precisem de muitas aulas extracurriculares caras; que estejam voltando atrás dando aos seus filhos espaço para brincar, pensar, errar e se entediar; e que estejam priorizando passar um bom tempo juntos, à moda antiga.

Os pais precisam de espaço também?

Eu perguntei ao meu marido, que é professor do ensino médio em uma escola de baixa renda, se ele tem visto uma epidemia de super-pais. Ele riu. “Quem dera. É mais frequente o contrário. Pais que nunca aparecem, não atendem os telefonemas e parecem não se importar”.

Seus comentários me fizeram pensar que talvez as crianças não sejam os únicos que precisam de espaço para respirar e cometer erros. A educação de filhos é um trabalho aprendido e talvez nós façamos pior aos nossos filhos do que se estivéssemos envolvidos além da conta.

Então embora, provavelmente, seja demais comprar joelheiras para bebês, cortar uma árvore para prevenir que uma castanha caia na piscina de uma criança alérgica ou ir correndo diversas vezes para a escola para entregar um caderno, a lancheira ou um colar, como fizeram alguns pais citados no artigo que Gibbs escreveu para revista Time, eu também hesito em julgar. Eu sei em primeira mão, que encontrar o equilíbrio perfeito na educação dos filhos não é uma tarefa fácil.

Mas se a educação de filhos desacelerada está prestes a lutar para estar mais conectada enquanto dá às nossas crianças mais espaço para que sejam elas mesmas, esses parecem ser objetivos que realmente valem a pena.

 

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Motores em miniatura são controlados dentro de células humanas

Imagem de célula, vista em microscópio, contendo nanomotes de rutênio.

Imagem de célula, vista em microscópio, contendo nanomotores de rutênio.

Publicado em 11 de fevereiro no BBC News

Tradução de Luciana Nascimento Fernandes

Pela primeira vez, cientistas colocaram minúsculos motores dentro de células humanas vivas e conseguiram controlá-los magneticamente. O avanço representa mais um passo em direção às máquinas moleculares que podem ser usadas, por exemplo, para liberar substâncias em locais específicos dentro do corpo. Há interesse nesse procedimento, pois ele pode tanto melhorar os benefícios de medicamentos como minimizar seus efeitos colaterais. As partículas de metal no formato de foguetes foram propelidas usando pulsos ultrassônicos.

O cientista de materiais Tom Mallouk, professor na Universidade da Pensilvânia (Penn State University), e seus colegas publicaram a pesquisa no periódico Angewandte Chemie International Edition. “Quando esses nanomotores movem-se e colidem com as estruturas intracelulares, as células vivas mostram respostas mecânicas nunca vistas antes”, declarou Mallouk. “Essa pesquisa é uma demonstração vívida de que é possível usar nanomotores sintéticos para estudar biologia celular de novas maneiras”, ele afirma.

Até o momento, os nanomotores vinham sendo pesquisados somente in vitro – em aparato laboratorial – mas não em células humanas vivas. Submetidos a uma força ultrassônica baixa, os motores miniaturizados tiveram pouco efeito nessas células. Mas quando a força foi aumentada, eles entraram em ação, movimentando-se e colidindo com as organelas – estruturas dentro das células que realizam funções específicas.

Os nanomotores podem ser usados como “batedores de ovos” para, essencialmente, homogeneizar os conteúdos celulares, ou agir como aríetes para perfurar a membrana celular. “Poderíamos usá-los no tratamento de câncer e de outras doenças ao manipular mecanicamente o interior das células”, afirmou Mallouk. “Além disso”, ele completou, “os nanomotores poderiam realizar cirurgias intracelulares e levar substâncias aos tecidos vivos de maneira não invasiva”.

Os pesquisadores conseguiram guiar os minúsculos motores usando força magnética. Eles também descobriram que os nanomotores podem mover-se de forma autônoma – independentes uns dos outros – uma habilidade importante para aplicações futuras.

Forças destrutivas

“A movimentação autônoma pode ajudar os nanomotores a destruir seletivamente as células que tentarem engoli-los”, explicou Mallouk. “Se você quiser que esses motores procurem e destruam células cancerosas, por exemplo, é melhor que eles possam mover-se de forma independente. Você não quer uma grande massa deles indo na mesma direção”.

Ao descrever os possíveis usos da tecnologia dos nanomotores, o professor da Universidade da Pensilvânia citou um filme de ficção científica de 1966, no qual um submarino e sua equipe humana são miniaturizados e injetados na corrente sanguínea de um homem em estado terminal, para salvá-lo. “Uma aplicação sonhada por nós é a medicina no estilo ‘Viagem Fantástica’, na qual os nanomotores navegariam dentro do corpo, comunicando-se entre si e realizando diversos tipos de diagnósticos e terapias. Há vários aplicativos para controlar partículas desse tamanho reduzido”.

A ideia de cirurgias em escala molecular pode ser remontada à palestra do famoso físico Richard Feynman, em 1959, intitulada “Há espaço de sobra no fundo”, em tradução livre (There is plenty of room at the bottom). Na conversa com a Sociedade Médica Americana (American Physical Society – APS), ele explicou: “Embora seja uma ideia muito selvagem, seria interessante se você pudesse engolir o cirurgião”. E completou: “Você coloca o cirurgião mecânico dentro do vaso sanguíneo, ele vai para o coração e ‘dá uma olhada’ em volta. Ele descobre qual é a válvula defeituosa, tira um pequeno bisturi e corta-a fora”.

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